Ana Segurado (2017) 

Coleções da Ana Segurado: http://www.anasegurado.com/pt/

To see the work of Ana Segurado:  http://www.anasegurado.com/pt/

Ana Segurado define as suas coleções como viagens catárticas pelo seu mundo introspectivo e orgânico. Com uma linguagem emocional e um compromisso com o respeito dos Direitos dos Animais, Ana Segurado vai construindo uma marca sustentável. É um caminho compensador, mas não isento de dificuldades.

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law-WFMFR): O que significa para si ser designer de moda? Um ofício, uma arte, uma forma de expressão de mensagens? 
Ana Segurado: Um ofício, uma arte e uma forma de expressão de mensagens. Desde a infância que tenho interesse pela moda e roupas. Passei muitas horas ao lado da minha avó enquanto ela costurava de forma exímia. O seu roupeiro estava cheio de roupas de outras épocas, eu adorava escapar para lá, e perdia-me a experimentar roupas e ouvir as histórias associadas a elas. Sempre me interessou a individualidade, a história que cada pessoa conta através da sua forma de vestir, e eu adoro criar estilos e histórias associadas à roupa. Sempre fui extremamente sensível e apaixonada pela arte em todas as suas expressões, então porque não combinar todos estes elementos numa marca? O meu trabalho envolve sempre a mistura de design e estética combinados com emoção e criatividade.

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law-WFMFR): Em que medida a arte (o trabalho de outros artistas) tem influenciado o seu processo criativo? 
Ana Segurado: Em praticamente todas as colecções. Gosto do conceito de interações experimentais com resultados inesperados, especialmente quando elementos naturais são usados como uma ferramenta para um propósito artístico, por exemplo, o uso de determinados corantes ou materiais. 

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law-WFMFR): Vejo também que transpõe para a sua roupa uma linguagem emocional. 
Ana Segurado: Sempre, seja na silhueta nos materiais ou nas técnicas que aplico. Trabalho quase sempre a reversibilidade (interior para exterior), as sobreposições e outros conceitos que são entrelinhas de uma linguagem emocional.

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law-WFMFR): Li na sua biografia que as suas coleções são únicas, orgânicas e intemporais. Porquê?
Ana Segurado: São únicas porque trabalho peças muito exclusivas, normalmente nunca faço mais do que 1 ou 2 peças por coordenado. Existe uma procura de equilíbrio entre o orgânico e o feminino, simplicidade e funcionalidade, seja no design, seja na produção. As colecções pretendem ser confortáveis como uma “segunda pele” e intemporais porque não quero criar peças para serem usadas unicamente uma estação. Quero que as minhas peças façam parte da história de alguém e que sejam usadas em várias ocasiões que perdurem. 

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law – WFMFR): Posso afirmar que a marca Ana Segurado é uma marca sustentável? Porque é importante para si ser uma marca sustentável?
Ana Segurado:  A marca é 100% cruelty-free mas ainda não posso dizer que é 100% sustentável. Estou constantemente à procura de opções sustentáveis. A maioria das vezes tenho de trabalhar com fornecedores estrangeiros, porque em Portugal ainda existem poucas ou nenhumas opções. Nesta coleção temos a introdução de dois novos materiais: o algodão orgânico dos EUA, porque nas suas plantações utilizam métodos que têm um baixo impacto sobre o meio ambiente e leis bastante claras para a sua produção. Outro material é a seda “ahimsa” - cruelty-free – em vez de ferver o casulo de seda ou perfurá-lo para libertar a fibra antes da borboleta emergir, que é o processo utilizado na seda comum e que provoca a morte da lagarta, a seda “ahimsa” é extraída após a metamorfose e saída da borboleta. Isto permite que a lagarta complete ilesa todo o seu ciclo de vida. 
É muito importante analisarmos todas as nossas ações e as consequências éticas e ambientais resultantes desses atos. Quando cada vez mais se fala dos alarmantes níveis de poluição, do aquecimento global, da extinção de algumas espécies, do lixo que provocamos, não ser uma marca sustentável não é opção. 

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law – WFMFR): Como jovem designer o que a preocupa mais? Quais as suas maiores dificuldades e quais as maiores vantagens de ser uma jovem designer independente e apostar na sustentabilidade?
Ana Segurado: As maiores dificuldades têm sido na obtenção de materiais, em Portugal a maior parte dos fornecedores para além de só venderem grandes quantidades, oferecem pouco no que diz respeito a materiais sustentáveis, estou neste momento a trabalhar 70% com fornecedores estrangeiros. No que diz respeito ao consumidor, cada vez mais existe uma preocupação e procura de respostas mais sustentáveis na hora de comprar, e isso é muito positivo.

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law – WFMFR): Quais são os seus projetos futuros? 
Ana Segurado: Continuar a criar, e internacionalizar. Gostaria muito de poder ligar o meu trabalho ao campo da investigação de novas fibras têxteis. 

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law – WFMFR): Como será a coleção para a próxima Primavera/Verão? Qual o tema, inspiração etc…

Ana Segurado: A próxima colecção Primavera / Verão 18  tem como inspiração o conceito Slow Future, que consiste numa tendência de despojar o excesso, onde o novo nem sempre é necessariamente melhor. Para a paleta, grafismo e materiais fui buscar inspiração ao trabalho do fotógrafo James Ball “Guide to Computing”, na série de fotos de computadores históricos que documentam a evolução do design. O lançamento oficial será em Janeiro de 2018.

Lígia Carvalho Abreu (Fashion Law – WFMFR): Muito obrigada Ana por esta entrevista.  
Ana Segurado: Obrigada.